Demência e Alzheimer é a mesma coisa?
Na conversa de família, alguém diz: "acho que a vó está com Alzheimer". Outra pessoa corrige: "não, o médico falou em demência". E fica a dúvida se uma coisa exclui a outra.
A resposta é: demência e Alzheimer não são a mesma coisa, mas estão muito ligados. Demência é uma síndrome, ou seja, um conjunto de sinais que pode ter várias causas. O Alzheimer é a causa mais comum.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 55 milhões de pessoas vivem com demência no mundo, e a doença de Alzheimer responde por cerca de 60% a 70% dos casos. É por isso que os dois termos acabam sendo usados como sinônimos no dia a dia.
O que é demência
Demência é o nome dado a um quadro em que há declínio em uma ou mais funções cognitivas, como memória, linguagem, atenção, raciocínio ou orientação, de forma intensa o bastante para interferir na independência da pessoa no dia a dia.
No DSM-5-TR, manual da Associação Americana de Psiquiatria, esse quadro é chamado de transtorno neurocognitivo maior. Quando as mudanças são mais discretas e a autonomia está preservada, fala-se em transtorno neurocognitivo leve, também conhecido como comprometimento cognitivo leve.
Vale também cuidar das palavras. Expressões como "caduco" ou "esclerosado" ainda aparecem em conversas, mas carregam preconceito e fazem a pessoa se sentir diminuída. Falar em "pessoa com demência" ou "pessoa com Alzheimer" ajuda a lembrar que, por trás do diagnóstico, existe uma história, uma personalidade e desejos que continuam importando.
Um ponto importante: demência não é uma consequência inevitável da idade. Muitas pessoas envelhecem com a cognição preservada, mesmo com pequenas mudanças esperadas no ritmo e na memória.
Tipos de demência: Alzheimer e outras causas
Existem diferentes tipos de demência, de acordo com a causa. Alguns dos mais conhecidos são:
- Doença de Alzheimer: a causa mais comum. Costuma começar de forma gradual, muitas vezes com dificuldade de guardar informações recentes.
- Demência vascular: relacionada a alterações na circulação do sangue no cérebro.
- Demência com corpos de Lewy: o nome vem de alterações microscópicas encontradas no cérebro, chamadas corpos de Lewy.
Existem ainda outros tipos, e em algumas pessoas mais de uma causa pode estar presente. Identificar o tipo é tarefa do médico e faz diferença, porque orienta o tratamento, o acompanhamento e as orientações à família.
Por isso, ouvir "é demência" não encerra a conversa. A pergunta seguinte é qual a causa, e a resposta muda o que fazer a partir dali.
Demência: sintomas e primeiros sinais que justificam avaliação
Os primeiros sinais costumam ser sutis e aparecer aos poucos. Alguns deles justificam buscar uma avaliação, principalmente quando são frequentes e representam uma mudança em relação ao jeito habitual da pessoa:
- esquecer conversas ou acontecimentos recentes com frequência, repetindo as mesmas perguntas;
- ter dificuldade com tarefas antes familiares, como pagar contas, seguir uma receita ou usar o celular;
- se desorientar em lugares conhecidos ou perder a noção de datas com frequência;
- ter dificuldade crescente de encontrar palavras ou acompanhar uma conversa;
- mudanças de humor, de comportamento ou de interesse que fogem do jeito de ser da pessoa.
Se a dúvida ainda é sobre esquecimentos do dia a dia, leia também esquecimento: quando se preocupar.
Quem avalia: o papel do médico e da avaliação neuropsicológica
O diagnóstico de demência é feito pelo médico, como geriatra, neurologista ou psiquiatra. É ele quem investiga as causas, solicita exames e define o tratamento.
A avaliação neuropsicológica complementa esse trabalho. Ela mostra, em detalhes, quais funções estão preservadas e quais mudaram, ajuda a diferenciar quadros que se parecem, como depressão, comprometimento cognitivo leve e demência, e orienta a família sobre como apoiar a pessoa no dia a dia.
A avaliação neuropsicológica não substitui os exames médicos, e os exames não substituem a avaliação: cada um responde a perguntas diferentes, e juntos formam um retrato mais completo.
Ela também serve como linha de base para comparar em reavaliações futuras. Em idosos, é comum incluir a conversa com um familiar ou cuidador, sempre com respeito à autonomia e à voz da própria pessoa avaliada. Saiba mais sobre a avaliação neuropsicológica de idosos.
Prevenção, cuidado e próximos passos
Nem todos os casos de demência podem ser evitados, mas há espaço para cuidado. A Comissão Lancet sobre demência, em 2024, identificou 14 fatores de risco modificáveis que podem estar ligados a até 45% dos casos, como baixa escolaridade, perda auditiva, hipertensão, tabagismo, diabetes, sedentarismo, isolamento social e perda de visão não tratada. Veja a lista completa em como prevenir a demência.
Como falar com o seu familiar sobre a avaliação
Muitas famílias adiam a avaliação por medo de ofender. Algumas atitudes ajudam: escolher um momento tranquilo, falar das mudanças com exemplos concretos e sem tom de acusação, apresentar a avaliação como um cuidado com a saúde e convidar a pessoa a participar das decisões. Se ela não quiser no primeiro momento, vale retomar a conversa com calma, talvez com a ajuda do médico de confiança.
Para a família, buscar informação cedo costuma trazer mais tranquilidade do que adiar a conversa. Entender o que está acontecendo ajuda a planejar, adaptar a rotina e cuidar também de quem cuida.
A Monica Sarah Salomon é psicóloga pós-graduada em Neuropsicologia e atende idosos e familiares 100% online, em português, para quem vive no Brasil ou no exterior. Se a dúvida faz parte da sua família, conheça como agendar uma avaliação.
