Autismo no Brasil: um marco do Censo 2022
Talvez você tenha visto a notícia e se perguntado: "e eu, que nunca recebi um diagnóstico, mas me identifico com tanta coisa?". Os números do Censo fazem sentido para muita gente justamente por isso.
Em 23 de maio de 2025, o IBGE divulgou um dado inédito do Censo Demográfico 2022: pela primeira vez, o Brasil contou as pessoas com diagnóstico de autismo. É um marco para políticas públicas, para a pesquisa e para a visibilidade das pessoas no espectro.
Quantos autistas há no Brasil, segundo o IBGE
Os principais números divulgados pelo IBGE:
- 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de autismo, o que representa 1,2% da população;
- 1,4 milhão de homens e 1 milhão de mulheres;
- o maior percentual está entre crianças de 5 a 9 anos (2,6%);
- entre adolescentes e jovens de 15 a 19 anos, o percentual é de 1,3%.
Um detalhe importante: o Censo contou pessoas que já tinham diagnóstico. Ele mostra quem foi identificado, e não necessariamente quantas pessoas autistas existem no país.
Por que esse dado importa
Até o Censo 2022, o Brasil não tinha um número oficial de base nacional sobre pessoas com diagnóstico de autismo. Sem dados, fica mais difícil planejar serviços de saúde, educação, trabalho e assistência. Ter um ponto de partida permite acompanhar mudanças ao longo dos próximos censos.
O dado também tem um efeito mais silencioso: muitas pessoas leem a notícia e se sentem vistas. Saber que milhões de brasileiros compartilham essa experiência ajuda a reduzir o isolamento e o estigma.
O que os números dizem sobre adultos
O percentual maior entre crianças não significa que o autismo seja "mais comum" nessa idade. Uma interpretação possível é que as crianças de hoje crescem em uma época em que o tema é muito mais conhecido, os profissionais estão mais preparados e as famílias buscam avaliação mais cedo.
Os adultos de hoje cresceram quando pouco se falava sobre autismo, sobretudo sobre pessoas com menor necessidade de suporte. Muitos chegaram à vida adulta sem nenhuma investigação. Por isso, tendem a ter menos diagnóstico.
Um estudo de O'Nions e colaboradores (2023), publicado na revista The Lancet Regional Health – Europe, ajuda a enxergar esse cenário em outro país. A estimativa é que, na Inglaterra, entre 150 mil e 500 mil autistas de 20 a 49 anos e entre 250 mil e 600 mil autistas acima de 50 anos possam não ter diagnóstico. O subdiagnóstico é muito maior entre os mais velhos. São dados de outro país, mas o raciocínio ajuda a entender por que tantos adultos brasileiros também podem não ter sido identificados. Saiba mais sobre o diagnóstico de autismo depois dos 40.
E sobre as mulheres?
No Censo, há mais homens do que mulheres com diagnóstico. A literatura científica também descreve mais meninos do que meninas identificados, mas com uma ressalva importante.
Uma meta-análise de Loomes, Hull e Mandy (2017), publicada no Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, reuniu 54 estudos. A proporção entre meninos e meninas foi de cerca de 4 para 1 no geral, mas caiu para cerca de 3 para 1 quando os estudos avaliavam ativamente as pessoas, em vez de contar apenas quem já tinha diagnóstico. Os autores sugerem que muitas meninas e mulheres não estão sendo identificadas.
Uma das explicações discutidas é o mascaramento: a camuflagem de características para se adaptar socialmente, que pode esconder o autismo por anos. Leia mais em autismo em mulheres adultas.
Brasil, Estados Unidos e o que dá (e não dá) para comparar
Nos Estados Unidos, o relatório do CDC (rede ADDM) de abril de 2025, com dados de 2022, identificou autismo em 1 em cada 31 crianças de 8 anos: 1 em cada 20 meninos e 1 em cada 70 meninas.
É tentador comparar com o Brasil, mas é preciso cautela. As duas pesquisas usam métodos diferentes. O CDC olha para crianças de uma única idade, em regiões específicas, a partir de registros de saúde e educação. O Censo brasileiro abrange a população inteira e conta os diagnósticos informados.
Se você suspeita de autismo na vida adulta
O DSM-5-TR, manual de referência da Associação Americana de Psiquiatria, reconhece que as características do TEA estão presentes desde o início do desenvolvimento, mas podem não se manifestar totalmente até que as demandas sociais ultrapassem as capacidades da pessoa, ou podem ser mascaradas por estratégias aprendidas. Por isso, o diagnóstico na vida adulta é possível, mesmo depois de muitos anos.
Também é importante lembrar que o espectro é amplo. Hoje se fala em níveis de suporte (1, 2 e 3), e não em "autismo leve" ou "grave". Muitos adultos que chegam à avaliação têm menor necessidade de suporte no dia a dia, o que ajuda a explicar por que passaram tanto tempo sem identificação. Leia mais sobre o autismo nível 1 de suporte.
Se você se reconhece nessa conversa, saiba que não está sozinha(o) e que nunca é tarde para entender a própria história. Buscar uma avaliação não é sobre ganhar um rótulo, e sim sobre ter clareza e escolher apoios que façam sentido.
Comece lendo sobre os sinais que justificam buscar uma avaliação e sobre como funciona a avaliação de autismo em adultos.
A Monica Sarah Salomon é psicóloga pós-graduada em Neuropsicologia e em TEA e atende adultos e idosos 100% online, em português, para quem vive em qualquer cidade do Brasil ou no exterior. Quando fizer sentido para você, veja como funciona o agendamento.
